Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008
ARTESANATO: MEMÓRIA E FUTURO

(...) qualquer que seja o seu suporte histórico, a cultura de um povo é sempre, em diversos graus, a superação ao mesmo tempo efectiva e simbólica da sua particularidade.

Eduardo Lourenço, in “Nós e a Europa ou as duas razões”, 1994:128


O artesanato confunde-se com a História da Humanidade. A criação de objectos e utensílios para satisfazer mais eficientemente um conjunto de necessidades básicas, por um lado, ou místicas, por outro, terá timidamente começado há cerca de três milhões de anos, altura em que o Homem começou a lascar pedras para assim melhor poder rasgar a pele e a carne dos animais que caçava, cortar e desfibrar raízes, frutos e caules de plantas. O Homo habilis foi assim o primeiro artesão e iniciou uma caminhada de criação de cultura (s) à medida que ia superando os obstáculos próprios da luta pela sobrevivência.

 
Depois dos primeiros objectos de pedra lascada é já no Paleolítico Superior que o Homem começa a fazer objectos mais sofisticados para caçar ou para pescar (pontas de seta, o arpão e, mais tarde, o arco e a flecha). É também nos finais deste período que modela as primeiras figuras femininas, conhecidas por Vénus (Vénus de Laussel, de Brassempouy, de Villendorf, etc.), como resultado das suas preocupações e angústias, de natureza mística, associadas à ideia de fertilidade.
Ao criar objectos para suprir inteligentemente um conjunto de necessidades o Homem distanciou-se definitivamente de todos os outros animais, tornando-se in motu próprio um ser criador de cultura. Na verdade, os artefactos que foram sendo produzidos no seio dos mais variados grupos humanos, ao longo dos tempos, acabaram por determinar as atitudes, os estilos de vida e a personalidade dos indivíduos nessas comunidades. Ao determinarem os modos de pensar e de agir, consubstanciados na “superação efectiva e simbólica de dificuldades particulares”, determinaram também a especificidade da cultura de cada um desses grupos ou povos.
Artesanato e memória cultural: Sendo esses artefactos, na sua transmissibilidade geracional, a parte visível e tangível dessas culturas, assim se transformaram (e se transformarão) em registos da Memória, na medida em que vão sendo recriados ou preservados. Se cada um de nós fizer uma pequena incursão genealógica nas respectivas famílias, e assim registar as profissões dos ancestrais, facilmente encontrará membros familiares que exerceram actividades artesanais. Por isso, de algum modo, directa ou indirectamente, todos nós estamos ligados ao artesanato. Se faz parte de nós, da nossa memória, fará parte da comunidade em que nos inserimos, porque esses objectos foram criados precisamente para garantir a sobrevivência das respectivas comunidades.
Felizmente, vai ganhando força em cada um de nós a ideia de nos re-ligarmos, através da preservação, da reprodução ou da prática criativa, a essa memória de um saber-fazer milenar e multifacetado que esteve ou está ainda presente nos próprios laços familiares.
Na nossa sociedade, os avanços técnicos e tecnológicos (imparáveis desde a Revolução Industrial), a massificação do consumo assente na organização estandardizada dos mercados e a profusão de ideias de modernidade transformaram inexoravelmente os nossos estilos de vida actuais. Novos objectos, novos engenhos e novas estruturas, associados a novos modos de produção, tomaram definitivamente o lugar da bilha de água, do carro de bois, da azenha, da espada ou da cesta de junco. No entanto, se soubermos incentivar, de maneira recomendavelmente interactiva, a prática das actividades artesanais (e das artes e ofícios em geral) e se conseguirmos manter vivo esse conhecimento técnico milenar, estaremos, por um lado, a afirmar o respeito por nós próprios e, por outro lado, a construir uma resposta alternativa para quem procura o que é único, o que é diferente, o que tem história ou o que ainda pode ser útil ou simplesmente bonito.
Artesanato e educação: Actualmente, a maioria das nossas crianças não convive normalmente com a origem ou o modus faciendis de grande parte dos produtos que consomem, tal como acontecia ainda há trinta anos no nosso País. Hoje, com a organização dos mercados e das novas formas de distribuição comercial, tudo aparece nos escaparates dos grandes espaços sob a fórmula de cash & carries. Os sapatos, as cerâmicas, as cutelarias, o vestuário, o mobiliário, a alimentação e muitos outros produtos advêm agora, na sua maioria, de processos industrializados de produção radicalmente distanciados dos precedentes processos artesanais. Sendo bom que os processos educativos promovam o conhecimento in situ dos sistemas de vanguarda, será ainda melhor que as crianças possam conhecer, o mais empiricamente possível, como se fazia um alguidar ou uma talha, como se confeccionava um sapato, como se costurava uma peça de roupa ou como se processava a produção do azeite antes de qualquer sofisticação industrial. No plano educativo, as crianças ganharão profundidade na compreensão dos processos de produção e saberão atribuir significado e valor à saga dos nossos antepassados para enfrentar, através da criação de vários artefactos, a própria sobrevivência.
Também as abordagens pedagógicas utilizadas com pessoas portadoras de deficiência, inseridas em instituições de carácter social, têm vindo a incrementar a prática de actividades de índole artesanal (a cerâmica, a encardenação, a marcenaria, entre outras). De facto, sendo na sua maioria actividades com objectivos ocupacionais, importa também realçar os seus efeitos positivos na coordenação psico-motora, na auto-estima, no desenvolvimento cognitivo e inter-pessoal e mesmo no aumento de possibilidades de integração no mercado de trabalho. Numa palavra, no desenvolvimento da autonomia, fim último de todo o acto educativo. O apoio de projectos que visem o desenvolvimento de pessoas portadoras de deficiência com graus muito reduzidos de autonomia, principalmente aquelas que não tenham ainda o apoio de alguma instituição social, deveria ter uma atenção especial por parte dos poderes instituídos do nosso concelho.
Artesanato e turismo: Não sendo preponderante na formação dos estilos de vida actuais, o artesanato passou a ter outras razões para continuar a existir como actividade profissional. De facto, já não é comum adquirir um cântaro para ir buscar água à fonte mas sê-lo-á, cada vez mais, para poder tê-lo em casa para simplesmente o apreciar como forma especial, como memória de um uso, como peça decorativa ou para usar requintadamente numa casa de campo (para quem puder ter uma). Mais do que nunca, hoje vivemos num mundo em que partes desse mundo pretendem conhecer as outras partes e vice-versa. À medida do nível de vida de cada país, e das pessoas em particular, cada vez há mais curiosidade pelo que se faz ou pelos modos de vida noutros países. Ou, dentro do mesmo país, de uma região para outra. Chamamos turismo cultural a este movimento particular de pessoas. Adquirir peças de artesanato é uma forma de provar que se esteve lá ou que se possui algo culturalmente diferente. É tão-somente uma forma de comunicação humana. Mostrar com excelência a nossa terra, a nossa região ou o nosso País deve ser uma preocupação de todos seja no plano individual, social ou político. Promover o turismo implica da parte de todos uma atitude pró-activa. No caso do artesanato, este poderá desenvolver-se melhor quando a oferta turística for dinamizada numa base interactiva de qualidade relacionando natureza, história, hotelaria, actividades lúdicas e animação cultural.
Finalmente, com a valorização das actividades artesanais, estaremos seguramente a construir uma contrapartida aos efeitos despersonalizantes desse fenómeno actual que conhecemos por globalização. A manutenção e o desenvolvimento deste saber-fazer milenar constituir-se-ão assim numa resposta alternativa aos modos de vida actuais, sendo, ao mesmo tempo, uma forma de afirmação da especificidade da nossa Memória, da nossa Cultura, de nós próprios.
 António Alves

 



AASAC Livramento às 10:06
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O INICIO... UM POUCO DE HISTÓRIA

A AASAC – Associação de Artesãos das Serras de Aire e Candeeiros surgiu a 20 de Março de 1992. A sua sede é no lugar do Livramento nas instalações de uma antiga escola primária cedida pela Câmara Municipal que na altura se encontrava em ruínas.

  

Desde o seu início, consoante as disponibilidades financeiras, estas instalações têm sofrido remodelações de modo a satisfazerem as necessidades da associação. Para além de promover e divulgar o artesanato dos seus associados também desenvolve projectos de Formação Profissional, para os quais está acreditada.

 

Desenvolvendo nos seus Formandos a sensibilidade para a importância da preservação do artesanato.

 

Sendo o Artesanato uma superior expressão cultural em que gestos do quotidiano, tradições e hábitos seculares se traduzem em objectos de rara beleza, onde está depositada informação “genética” da nossa sociedade e da sua evolução. A AASAC não poderia deixar de estar presente na Expomos, a qual nos últimos anos, tem crescido em número de expositores e se tem aprimorado nas condições que oferece a expositores e ao público, desempenhando igualmente um papel comercial determinante, até porque é a viabilidade económica da produção artesanal o melhor e decisivo garante da sua continuidade e reforço. Não esquecendo, que as feiras de artesanato que possam ser realizadas, são importantes para a valorização, divulgação e promoção dos produtos endógenos do concelho, junto da comunidade.

 

 

 



AASAC Livramento às 09:45
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